- O que devemos fazer se suspeitarmos que alguém próximo está enfrentando um problema de saúde mental e precisa de ajuda?
Em primeiro lugar, a primeira atitude a se tomar é o acolhimento afetuoso no sentido de dar apoio à pessoa (familiar ou amiga), dando segurança de que ela pode contar com a nossa ajuda em qualquer circunstância. Vale a pena se informar ou investigar se essa pessoa tem parentes próximos que tenham tido algum tipo de transtorno mental ou antecedente psiquiátrico. A seguir, feito um vínculo de confiança, devemos procurar um profissional de saúde mental habilitado para enfrentar e manejar uma situação de crise. Uma avaliação psiquiátrica se faz necessária, com eventual tratamento medicamentoso, dependendo da gravidade do caso. Além disso, um acompanhamento terapêutico a médio/longo prazo é também fundamental para investigar as possíveis causas, proporcionando um profissional em que a pessoa em surto possa se abrir, relatando episódios e histórias de vida que ela não teria coragem de expor a outros. Dessa forma, apenas medicar não resolve. Temos de ter uma abordagem humanística levando em consideração a situação única e singular individual de cada um.
Não há receitas de bolo ou fórmula mágica para resolver um desequilíbrio psíquico, mesmo que cada um de nós possa, eventualmente, enfrentar um “dia de fúria”. Além disso, através do apoio de um assistente social, seja da rede CAPS ou particular, deve-se iniciar um approach de psicoeducação e esclarecimento no sentido de combater o estigma e preconceito que a mente não pode adoecer, assim como um órgão do corpo humano. Entretanto, não devemos esquecer que nós somos todo harmônico e, dessa forma, qualquer intervenção médica e psicossocial deve ser feita de forma holística, em se respeitando a complexidade que cada um possa enfrentar. Colocar-se no lugar do outro, “calçando o sapato alheio”, tratando o ente querido do mesmo modo que você gostaria de ser tratado é fundamental. Porém, muitas vezes, a pessoa que está em desequilíbrio psíquico pode não aceitar um tratamento ou mesmo um diagnóstico. Dessa forma, uma conversa franca e fraterna, além da participação de grupos de autoajuda e suporte de pares ajuda bastante. Deve-se ter em mente que na vida tudo passa, sempre existindo fases altas e baixas, devendo-se enfrentar os problemas e dificuldades de forma otimista e com esperança realista.
- Quais são os benefícios da rede de apoio para pessoas que sofrem de problemas de saúde mental?
O principal benefício é a produção de insights a partir da troca de experiência vivida com outras pessoas que enfrentaram, ou enfrentam, situação semelhante ou, eventualmente, tenham o mesmo diagnóstico. A busca por associações de saúde mental, sejam elas ONGs ou entidades vinculadas ao sistema de saúde público ou privado, pode também proporcionar rede de apoio que ajuda no tratamento e superação (recovery) da crise ou episódio psicótico.
- Como a rede de apoio pode ajudar no processo de recuperação de problemas de saúde mental?
A rede de apoio, como dito no item anterior, proporciona insights para o reconhecimento de um problema mental que pode ser manejado por um profissional de saúde mental de forma multi e interdisciplinar. Através da escuta de relatos de casos, a pessoa em sofrimento psíquico percebe que não está sozinha e abandonada. Sempre haverá a possibilidade de recomeço, especialmente se essa pessoa tiver algum tipo de espiritualidade, religiosa ou não.
- Quais são os diferentes tipos de apoio disponíveis na rede para saúde mental?
Usualmente, a rede de saúde mental, pública (CAPS ou hospitais-dia) ou privada (clínicas ou hospitais psiquiátricos particulares), sempre oferecerá serviços psiquiátricos, através de profissionais médicos habilitados e credenciados, além de suporte terapêutico, terapia ocupacional, reuniões em grupo (de usuários e/ou familiares), assistência social e defesa de direitos, com advogados previdenciários, além de apoio psicossocial e psicoeducativo.
- Qual é o papel dos familiares e amigos na rede de apoio para pessoas com problemas de saúde mental?
Familiares e amigos devem sempre interagir de forma positiva e sinergética com a rede de apoio para atender às necessidades das pessoas com problemas de saúde mental. Dar informações relevantes e verdadeiras sobre a situação que a pessoa vem enfrentado, de forma honesta e ética, é fundamental. Buscar orientação e informação para interagir com a equipe da rede de apoio, que tem vasta experiência profissional e acadêmica em saúde mental, ensinando e aprendendo reciprocamente em como proceder no manejo, não apenas clínico, mas especialmente o psicossocial, para enfrentar e superar a crise.
- Como encontrar e acessar uma rede de apoio para saúde mental adequada para as necessidades individuais?
Atualmente, uma busca pelo Google ou outra ferramenta de busca na internet geralmente ajuda as pessoas que estão enfrentando uma situação inédita ou nova. Contudo, o ideal é consultar pessoas de confiança que já tiveram necessidade de apoio da rede de saúde mental para se ter uma indicação ou referência visando encontrar os melhores profissionais, maximizando a relação custo/benefício. A busca por clínicas sociais de faculdades e universidades também podem proporcionar informações relevantes e precisas, assim como oferecer serviços a custo mais acessível.
- Como a rede de apoio pode contribuir para a prevenção de recaídas em problemas de saúde mental?
O acompanhamento ambulatorial pelo período que se faça necessário é fundamental. Pode-se iniciar com uma frequência mensal, trimestral e, após estabilização do quadro psíquico, até mesmo semestral e, assim, pode-se evitar recaídas através do monitoramento psicoterapêutico, com ou sem ajuste medicamentoso.
- Quais são os desafios enfrentados na construção e manutenção de uma rede de apoio eficaz para pessoas com problemas de saúde mental?
Geralmente, o principal problema para a construção e manutenção de uma rede de apoio eficaz é o financeiro. A falta de verbas pode comprometer a manutenção adequada das instalações, bem como remunerar e/ou contratar profissionais competentes. Também a falta de informação e acesso ao “estado da arte” da prática médica pode ocorrer em regiões mais remotas, longes dos grandes centros urbanos. Pode inclusive haver a dificuldade de comunicação ou atualização profissional adequada, devido a não participação dos profissionais envolvidos na rede de apoio em eventos e congressos de saúde mental.
- Como a rede de apoio pode ajudar a diminuir o estigma em relação aos problemas de saúde mental?
A psicoeducação e o acesso à informação são fundamentais para a redução do estigma e do auto estigma. Contudo, infelizmente, muitas vezes a rede de apoio não consegue ter acesso às diversas mídias digitais e sociais, bem como noticiários, que divulgam geralmente fatos desfavoráveis e negativos envolvendo pessoas com transtorno psíquico. Na verdade, a realidade é que os casos envolvendo agressividade ou violência com pessoas com problemas mentais são a minoria. Deveria haver um setor de defesa de direitos (advocacy) para denunciar fake news ou notícias sensacionalistas que visam apenas aumentar a audiência, explorando a miséria humana. Contudo, isso só pode ser feito através do apoio dos pares, sejam eles usuários, familiares ou profissionais de saúde mental. Uma representação nas esferas políticas (sejam elas federal, estadual ou municipal) deve nortear, durante as eleições, a busca de candidatos que tenham uma plataforma balizada pelos direitos humanos e defesa das minorias.
- Quais estratégias podemos adotar para criar uma rede de apoio efetiva para pessoas que sofrem com problemas de saúde mental?
Network, ou seja, a construção de redes de apoio. A união e o esforço conjunto de pessoas dos diversos setores da sociedade civil é a melhor estratégia para enfrentar problemas em comum e recorrentes. A atuação dos pares, sejam eles usuários, familiares ou profissionais de saúde mental tem de ser harmoniosa e coordenada. Juntos, somos mais fortes. Entretanto, para isso, é necessário enfrentar o estigma e preconceito, de peito aberto, com coragem, sem hipocrisia ou falsidade e sem esconder a realidade dos fatos.
